Terapia x Busca Espiritual
Você busca sua essência
fora de você, por isso que você faz tudo o que faz. Terapia, inclusive... E
o que é mais moderno é que as terapias estão se confundindo com busca
espiritual. Mas isso é impossível. Porque nenhuma terapia vai encontrar o
"Espírito". Nenhuma. Ela não foi desenhada para fazer isso. Todas as
terapias vão ter que ser abandonadas num certo momento. A terapia é
desenhada apenas para o seu sistema se desintoxicar de pensamentos
negativos, sentimentos negativos e química negativa que está fluindo no seu
corpo. As coisas que você comeu... Mas veja bem: todas essas coisas são
temporárias, porque chega um ponto que você não pode ficar continuamente
fazendo terapia. Porque não existe aperfeiçoamento. Você nunca vai atingir a
perfeição absoluta num nível mental, sentimental ou corporal. Porque é da
natureza do corpo, da mente e dos sentimentos permanecerem fluidos; eles são
afetados pelo meio ambiente... A comida que você come, alguma coisa que
acontece... E mais cedo ou mais tarde todos os "budas" morrem, não morrem?!
Os corpos morrem. Se houvesse, de alguma forma, o encontro através da
perfeição do corpo e da mente, nós teríamos "budas" de dois mil anos andando
entre nós. Se esse fosse o segredo... Mas o segredo é transcender a forma.
Só que a maioria das coisas que estamos lendo, a maioria das coisas que
estão acessíveis, muito pouco apontam para essa transcendência do corpo, da
forma. Ou se apontam, apontam de tal maneira que fica muito difuso, confuso
de entender, escuro, e você não entende direito.
É preciso ter o olhar correto! A atenção correta. É preciso que se abram
algumas frestas, e você veja. Evite terminantemente, atenciosamente, os
objetos. Eles são quatro basicamente: seu corpo é um objeto que pode ser
observado, seus sentimentos, seus pensamentos e o mundo externo, o que está
fora do corpo. Todas essas coisas são objetos. São observáveis. Essas quatro
coisas têm que ser completamente evitadas. E como se faz isso? Stop! Quando
você fica muito, muito, muito, quieto; nesse momento, os objetos não
importam. E esse momento não é difícil, ele está aqui e agora, é só parar
tudo. Pára! Pare até a sua respiração, e observe. A natureza desse momento é
pacífica. É paz em si. E você ainda diz: "Eu quero que a minha mente fique
em paz".Mas mente não pode ficar em paz, porque mente é turbulência, uma
mente em paz não é mente, então não existe. É contradição em termos, dizer
"mente em paz". Não tem mente! E a paz não pode ser alcançada. Porque essa
paz seria um objeto que foi conquistado. E algo que pode ser conquistado,
pode ser perdido. "A paz" para onde eu estou apontando não pode ser perdida
e nem pode ser conquistada, porque está anterior a todos os outros objetos
que existam. Você é simplesmente "essa paz".
Basicamente o meu convite é simples: É parar de fazer absolutamente tudo o
que você vem tentando fazer. Tudo! Mas você pensa: "Se eu não fizer nada,
nada vai acontecer!" É exatamente isso o que vai acontecer: "Nada". E é
"Nada" o que tem que acontecer para você. Se não, você está querendo que
alguma coisa aconteça, e essa coisa que você quer que aconteça, ela é só uma
idéia. É uma idéia que você tem, e você projeta essa idéia na realidade.
Você fica tentando que "sua idéia" se realize, mas não vai se realizar.
Quando você remover todas as suas idéias, e parar de tentar fazer com que
alguma coisa aconteça, aí algo acontece. Aí, "Nada" acontece. Essa foi a
pergunta que fizeram a Buda: "O que aconteceu a você, embaixo da árvore de
bodhigaya?" E ele disse: "Nada! O nada aconteceu para mim".É claro, se você
vier com o pensamento retilíneo, extremamente racional, você não vai
entender o que estou dizendo. Mas se você ouve com seu coração, ou além, se
você deixa "sua essência" ouvir o que eu estou dizendo, "ela" vai entender.
Porque é "ela" que está falando. É uma ressonância... Tem que haver
ressonância nisso que está sendo dito. Nada vai acontecer! E é exatamente
esse o meu convite: que "Nada" aconteça para você. Porque tudo o que
acontece, desacontece.
Eu sei que na cabeça de cada um de nós foi colocada a idéia de
aperfeiçoamento, de perfeição, de aprimoramento, de limpeza, de
sintonização, de equilíbrio... E tudo isso o coloca na perspectiva de que
você tem que prorrogar o seu "dar-se conta", o seu "acordar". O "acordar"
fica prorrogado para um novo momento, para uma nova possibilidade. E você
justifica isso colocando-se para baixo: "Eu não sou capaz ainda de entender,
eu não estou 'limpo' o suficiente, não estou equilibrado o suficiente". Ou
colocando a culpa naquele que vos fala: "Ele não tem o que eu quero!"
Mas você já experimentou tantas coisas, e todos os seus experimentos só
restaram como memória. Você se encontra tão vulnerável quanto antes de todos
esses experimentos. Não se engane! Todos os experimentos são apenas
experimentos e ficam como memória. E agora você apenas lembra-se deles, e
quando você está mal, lembra daquele momento. Tem até livros que sugerem
isso: "Quando você estiver mal, pense nos momentos bons que aconteceram na
sua vida". Oras! É uma forma de sonambulismo, de hipnose. Porque a grande
pergunta é: Por que essa pessoa está se sentindo mal? Provavelmente, se for
investigado, ela está presa a um pensamento, e ela faz alguma coisa para
sair disso...
É óbvio que eu não tenho esperança que vocês dirão assim: "Ok! Vou largar
todos os meus interesses agora!" Eu não tenho essa esperança. Mas isso não
me impede de compartilhar o que estou compartilhando com vocês. Porque
eventualmente alguns de vocês vão perdendo seus interesses. E quando os
perderem saibam que existe esperança nessa "des-esperança". Essa é
exatamente a "esperança suprema", é o encontro com Deus. E não o Deus da
dualidade, porque quando se diz "encontro com Deus", sugere o encontro de
duas coisas. Mas na verdade é a dissolução: "Eu me entrego. Seja feita a Tua
vontade!" Existem tantas formas de dizer isso, de responder a isso. Mas a
verdade é essa: você chega a um ponto onde você simplesmente se entrega. E
isso não significa que você vai parar de ter amigos, que você deva parar de
ir ao cinema, que você vai parar de fazer sexo... Você não pára. Ou até
pára, se quiser, é completamente individual. Mas não tem mais o "gancho" que
você tinha, aquilo não mais te "engancha", você não mais morre por nada
daquilo, você não sofre por nada daquilo.
Sua natureza já é satisfeita em si. Tudo o que você precisa, você já tem. É
claro que você não acredita, é claro que o seu trabalho é encontrar sentido
em tudo o que estou compartilhando, e experimentar no seu dia-dia. Quando
você sofre ou quando você se ilude com uma alegria extrema em relação a um
objeto qualquer que lhe apareceu. Sim, porque às vezes aparece um objeto que
te dá extrema felicidade, e você logo diz: "Agora estou salvo!" Só até, em
pouco instante, você descobrir que não era nada daquilo que você estava
pensando. Se você já teve essas experiências, você pode criar um
afastamento, esse afastamento é inteligente. É estar no mundo, sem fazer
parte dele.
SATYAPREM
Trecho de Satsang acontecido em Recife, junho de 2001
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